A magia do autocuidado

A paixão pelo que é belo cresceu em mim por meio de outras mãos.
Cresci vendo minha mãe misturar cremes e óleos, improvisar combinações com o que tinha à mão. Azeite de oliva no cabelo, óleo misturado ao creme. Aquilo sempre me pareceu uma espécie de alquimia doméstica. Hoje, a ciência questiona muitas dessas receitas, e com razão. Mas, naquela época, o que me encantava não era a eficácia comprovada. Era o gesto. O tempo dedicado. A intenção colocada ali.

Minha avó passava óleo de rícino (azeite de mamona para os íntimos.) no meu cabelo e fazia uma trança com calma (as vezes). Eu lembro desse momento como algo muito específico, quase sagrado. Não era só cabelo. Era presença. Era toque. Era um cuidado que ficava além do cabelo.
E havia também o meu avô.
Para quem tem uma raiz mais interiorana, sabe exatamente do que eu estou falando quando digo que ele fazia garrafada. Ele conhecia ervas, misturas, cascas, tempos de preparo. Fazia o próprio remédio. Não vendia. Não anunciava. Era um saber passado, vivido, aplicado no cotidiano.

Talvez por isso, desde cedo, eu quis repetir esses gestos. Comecei a misturar os meus próprios cremes, certa de que, em algum momento, aquilo se transformaria em algo maior. Uma poção. Uma forma de glamour magic, o cuidado como feitiço cotidiano, como transformação pessoal.
Por volta dos 18 anos, esse interesse ganhou estrutura. Vieram as receitas caseiras, as máscaras de argila, a clássica mistura de borra de café com mel. Fazia parte do meu dia a dia, da minha forma de me cuidar.
Foi também nessa fase que iniciei um dos primeiros cursos que fiz: cosmetologia natural. Ele abriu as portas para os ingredientes, mas também para o entendimento de que a matéria-prima, sozinha, não basta.
O natural é a origem.
Mas ele precisa de lapidação.
A pele exige estabilidade, segurança, precisão. Exige ciência.
E isso não quebra a magia das coisas, apenas a transforma.
Hoje, eu entendo a beleza como ritual consciente. Cada gesto ainda carrega intenção, mas agora carrega também conhecimento. A intenção não substitui a fórmula, mas potencializa o processo.
Autocuidado, para mim, nunca foi só resultado.
Sempre foi transformação.
É disso que vem o desejo de seguir criando e compartilhando cuidado, transformando o que aprendi, nas mãos da minha avó, nas garrafadas do meu avô e nas misturas da minha mãe no batente da cozinha, em uma alquimia própria.
Uma prática viva, construída com presença, escolha e ancestralidade.

P.S: E esse texto é, também, uma homenagem.
Às mãos que cuidaram antes de mim.
